Ficha de referência cultural
Exemplares de publicações voltadas ao público LGBTQIA+. Reprodução Acervo Bajubá. Modificada pelo autor.
Foram publicações alternativas ao mercado editorial feitas por pessoas da comunidade LGBTQIA+
voltadas para pessoas da mesma comunidade. Eram, geralmente, de tiragem pequena e vendidas ou
distribuídas em pontos de encontro da comunidade. Tais publicações fortaleceram o diálogo entre
grupos e pessoas da comunidade e impulsionaram o movimento LGBTQIA+ durante os anos da Ditadura
Militar e os anos de repressão subsequentes.
Durante a Ditadura Militar, materiais voltados à população LGBTQIA+ (então chamados genericamente de
homossexuais) circulavam de forma clandestina em formas de folhetins ou pequenos jornais. Parte
dessas publicações tratava de assuntos mundanos e dialogava com seu público através de contos,
fofocas, poesias, classificados, indicações culturais e replicavam reportagens que haviam sido
publicadas em grandes jornais e revistas.
MacRae (2018) afirma que é possível que chegaram a circular 27 publicações gays no Brasil, na
década de 1960 e no começo de 1970. Contudo, é durante o período de arrefecimento da censura
durante a Ditadura Militar que o universo das publicações marginais homossexuais se revoluciona,
tornando-se componente ativo de resistência à opressão e pela liberdade de existir e viver a
sexualidade. São com esses propósitos que são produzidos boletins como o Lampião da Esquina,
ChanacomChana e Facção Homossesxual de Convergência Socialista, por exemplo.
Como uma literatura, portanto, marginalizada, muitas vezes as publicações eram produzidas com poucos
recursos, com técnicas artesanais e fotocopiadas (“xerocadas”). Vendidas ou repassadas de mão em
mão, a distribuição era feita comumente fora das bancas de jornais e das ruas, concentradas em
pontos de encontro, como nas noites da capital, os “guetos gays”. Para tanto, era necessária certa
organização informal, e por vezes espontânea, das pessoas interessadas.
No período pré-internet e de repressão, os boletins poderiam ser o ponto de informação e acolhimento
de uma pessoa não heteronormativa, já que os folhetins faziam-se chegar em locais longe das
capitais, como ocorria com o exemplares do Lampião da Esquina:
“A abrangência de circulação do jornal (...) permitiu com que cartas de diferentes procedências –várias cidades brasileiras e até algumas cartas do exterior do país – fossem enviadas para publicação. (...) Apesar das dificuldades nos métodos de distribuição, o jornal possuía estratégias de circulação – beneficiando-se muito do “boca-a-boca” – por espaços reconhecidos como guetos homossexuais: saunas e boates, por exemplo.(...) Os leitores também colaboravam com a distribuição do jornal por diversas cidades brasileiras, indicando possíveis locais de venda” (BANDEIRA, 2006:56)
Criado em 1978 entre São Paulo e Rio de Janeiro, o Lampião foi o primeiro jornal homossexual de
grande tiragem e circulação nacional. O corpo editorial do Lampião era composto por integrantes do
grupo SOMOS, considerado o primeiro grupo homossexual do país. Com 38 edições, circulou até 1981 e
teve uma circulação aproximada de 10 a 15 mil exemplares que se espalharam pelo país. Mesmo com o
preconceito vigente, era vendido nas bancas de jornais mesmo com resistência dos comerciantes em
manter, em suas bancas, jornais que falava de bichas, racismo e feminismo, com corpos nus e seminus.
Conta José Silvério Trevisan que os próprios editores, como ele, faziam a distribuição pelas bancas
de jornal, tendo, como era de se esperar, que “enfiar o jornal pela goela dos jornaleiros adentro.”
(FERREIRA 2010 apud MOTTA, 2006)
O Lampião da Esquina produziu também a primeira matéria lésbica escrita em primeira voz, de autoria
do Grupo Lésbico Feminista (LF), um subgrupo do SOMOS. Conta Marisa Fernandes que saíram na noite
paulistana, nos guetos das lésbicas e venderam 200 exemplares do jornal com a matéria escritas por
lésbicas ativistas (JORNAL da USP, 2018).
A partir da experiencia com o Lampião da Esquina, ativistas lésbicas do grupo Lésbico Feminista
(LF), posteriormente reformado como Grupo de Ação Lésbica Feminista (GALF), se reuniram para
produzir seu próprio jornal, inteiramente voltada às lésbicas, uma vez que não encontraram espaço no
Lampião. A maioria dos textos foram assinados por Miriam Martinho e Ruth Rocha.
O boletim servia de meio de informação dos debates surgidos dentro do GALF assim como suas ações no
campo político e na luta pelo orgulho lésbico e feminista. Os informes políticos dividiam espaço com
poesia, quadrinhos, dicas de leitura e cartas de pessoas à procura de relacionamentos. Estampada em
alguns números do boletim, está a descrição: “O boletim Chanacomchana é um espaço criado por
mulheres lésbicas para mulheres lésbicas e todas as pessoas que queiram debater, conversar e se
divertir conosco. Queremos que ele seja um veículo de informação, discussão, humor, namoro, poesia e
sonho para todas que o fizeram e para quer for lê-lo também.” (CHANACOMCHANA n.2, p. 2)
A produção e distribuição do Chanacomchana, assim como o GALF, conformaram um dos mais importantes
eventos da resistência e luta LGBTQIA+ no país: o Levante do Ferro's Bar. Este foi um bar no centro
da cidade muito frequentado por lésbicas, à despeito da vontade dos proprietários, e um dos pontos
de venda do boletim pelas integrantes da GALF. Apesar da presença lésbicas, consumidoras do
estabelecimento, em julho de 1983, as militantes foram proibidas de entrar o bar para vender o
Chanacomchana e foram expulsas do local. Diante de tal ato, o GALF organizou o movimento que
marcaria a luta e a coragem das mulheres nos anos de repressão. Em 19 de agosto de 1983, integrantes
do grupo, apoiada por outras mulheres, invadiram e tomaram o Ferro’s Bar e transformaram-no em
palco
de falas políticas voltadas ao respeito e orgulho lésbico. Hoje, o dia 19 de agosto é celebrado como
Dia Nacional do Orgulho Lésbico, em razão do nosso "pequeno Stonewall brasileiro".
Com o advento da internet, a produção de zines se mantém em forma de revista digital, zines e blogs.
Muitas publicações históricas, porém, foram perdidas e sobrevivem apenas na memória de quem as leu.
A jornalista Paula Silveira-Barbosa (SILVEIRA-BARBOSA, 2019, 2020) compilou uma lista de boletins
lésbicos que circularam entre os anos 1980 e 1990 com os quais se deparou em sua pesquisa, como os
paulistas Deusa Terra, Lesbertárias, Um Outro Olhar, Gem e Ousar Viver. Nessa lista nota-se a falta
de informação sobre as publicações demonstrando a perda da memória nesse campo.
Capa das publicações Lampião da Esquina e Chanacomchana. Acervos Bajuba e Grupo Dignidade
BAJUBA Memória LGBT. Acesse aqui
BANDEIRA, Marcio Leopoldo Gomes. Será que ele é? Sobre quando o Lampião da esquina colocou as Cartas na Mesa. Mestrado em História. PUC-Sao Paulo, 2006.
FERREIRA, Carlos. A imprensa homossexual: surge o Lampião da Esquina. Alterjor. Ano 01 Vol. 01, jan-dez. 2010.
GRUPO DIGNIDADE. Acesse aqui
LAMPIÃO, da Esquina. N.2, jun- jul. 1978. Acesse aqui
Macrae, Edward. A construção da igualdade: política e identidade homossexual no Brasil da “abertura”. Salvador: EDUFBA, 2018.
MARTINHO, Mirian. Memória Lesbiana: um Raio-X dos boletins ChanacomChana e Um Outro Olhar e suas digitalizações. Um Outro Olhar. 17 ago 2021. Acesse aqui
Na ditadura, mídias alternativas quebraram tabus sobre LGBTs. Jornal da USP. 13 jul. 2018. Acesse aqui
SILVEIRA-BARBOSA, Paula. Trajetória da imprensa lésbica brasileira, um história possível. Aedos v. 11, n. 24, p.142-163, Ago. 2019. Acesse aqui
_______ Imprensa Lésbica no Brasil: memórias lesbianas e contribuições ao jornalismo. In: Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – VIRTUAL – 1º a 10/12/2020.
OUTRAS REFERÊNCIAS CULTURAIS RELACIONADAS
Lugares - Ferro's Bar, Calendário LGBTQIA+