Ficha de referência cultural
Rosely Roth, ao centro, barrada pelo porteiro do Ferro’s Bar, 1983. Fonte: Acervo Folha de São Paulo
Ferro’s Bar foi um importante local de socialização e articulação política de mulheres
lésbicas e
bissexuais durante os anos 1960 a 1980. Trata-se de uma uma referência cultural na memória LGBTQIA+.
O bar é conhecido também por ter sido cenário da primeira manifestação protagonizada por lésbicas
contra a discriminação, que ocorreu no dia 19 de agosto de 1983, intitulada como Levante do Ferro's
Bar, data reconhecida pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo como o Dia do Orgulho
Lésbico. Foi inaugurado em 1961 e viveu o esplendor da Boca do Luxo, nome dado à região boêmia do
centro de São Paulo na época (GUMIERI [s.d.]).
Embora inicialmente frequentado pelo público masculino de jornalistas, artistas e comunistas, foi no
fim da década de 1960 que o Ferro's Bar passou a ser uma referência para a comunidade lésbica, se
tornando, involuntariamente, cenário de um crescente processo de organização política e redes de
apoio formadas por suas frequentadoras. Parte dessas frequentadores atuavam no grupo
Lésbico-Feminista (LF), posteriormente reformado e nomeado Grupo de Ação Lésbico Feminista (GALF). O
LF surgiu como uma facção do grupo SOMOS. O GALF, por sua vez, surgiu do rompimento de parte de suas
integrantes com o SOMOS por conta do machismo e lesbofobia ali existente. Seria o LF e,
posteriormente o GALF, organizados por Miriam Martinho e Rosely Roth, que publicaria o boletim
Chanacomchana a partir de 1981. O GALF e o boletim se tornariam importantes meios de comunicação de
lésbicas e de fortalecimento de sua rede. O boletim era vendido e compartilhado nos locais de
encontro de lésbicas. No Ferro's Bar, a distribuição era realizada aos sábados à noite. (SALES, 2019
apud FERNANDES, 2015, p. 145).
Mesmo que possuísse por anos, em seu ambiente, a recorrente ocupação do espaço por mulheres
lésbicas, com destaque as participantes do GALF, que em sua maioria poderiam ser denominadas
mulheres de classe média, segundo Sales (2019 apud Fernandes, 2015): "o Ferro’s Bar, assim
como
muitos outros lugares frequentados por gays e lésbicas, não se identificava como um bar de
frequência homossexual e nem se adequava para tal"; o dono do bar e alguns funcionários implicavam e
faziam ameaças para o impedimento da venda do boletim no local.
Foi no dia 23 de julho de 1983, quando a situação se agravou, com o dono e seus funcionários se
impondo novamente com o propósito da expulsão das membras do GALF, para que não vendessem o boletim
Chanacomchana. Partiram então, para a agressão física, alegando que as militantes estariam fazendo
arruaça, ato que levou as outras lésbicas no recinto a tomarem partido em defesa às ativistas do
grupo e, em consequência, a solicitação da polícia pelo dono do estabelecimento. Os policiais, em
rara exceção, sobretudo, para a época, ouviram os dois lados e preferiram não tomar partido,
declarando igualdade de direitos, o que fez com que as militantes, naquele dia, permanecessem no bar
(Sales, 2019).
Apesar da momentânea vitória no conflito de ocupação do espaço de lazer e sociabilidade, era
necessário que o evento de carácter discriminatório fosse externado, a fim de não apenas declarar
sua permanência enquanto frequentadoras, mas denunciar a repressão para com esses corpos políticos.
Dessa forma, foi organizada uma manifestação no estabelecimento, no dia 19 de agosto de 1983, o
Levante do Ferro's Bar, divulgado por meio de panfletos e no boletim Um Outro Olhar (1987),
transformado em site em 2004 e atualizado por Miriam Martinho desde de então.
Como presença relevante, foram convidados para ajudar na manifestação os militantes do movimento
homossexual (Outra Coisa Ação Homossexualista), feministas e também contaram com a ajuda de
políticos de partidos de oposição, como a deputada Ruth Escobar (PMDB), a vereadora Irede Cardoso
(PT), Eduardo Suplicy (PT), que era deputado federal e a advogada Zulaiê Cobra Ribeiro, que fazia
parte da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Sales, 2019).
GUMIERI, Julia. Ferro's Bar. Memorial da Resistência, São Paulo. 216-11.029. Acesse aqui
SALES, Gabriela Coutinho. Lésbicas no debate da redemocratização: uma análise do boletim Chanacomchana. 2019. 50 f., il. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado e Licenciatura em História)—Universidade de Brasília, Brasília, 2019. Acesse aqui
OUTRAS REFERÊNCIAS CULTURAIS RELACIONADAS
Circuito dos Bares, Baladas e Restaurantes, Calendário LGBTQIA+, Publicações Marginais